domingo, 24 de janeiro de 2010

FESTIVAL CÔTES DU RHÔNE – Fritz Haag & Douro Boys


Imagino que por esta altura do campeonato a publicação deste post já pecará por tardia. Sei que vivemos na era do imediatismo e que tudo se deverá manifestar de uma forma instantânea e sem nada de permeio. Mas a verdade é que tudo aquilo que vivi no passado domingo me deixou um pouco aturdida. Que momentos tão altos aqueles! Parecia uma criança extasiada ao entrar no mundo mágico da Disney World.

Para quem não sabe, refiro-me ao Festival Côtes du Rhône que teve lugar no passado dia 17 de Janeiro, no idílico cenário da Quinta de Nápoles, no Douro.

Para além dos Douro Boys e seus magníficos vinhos, esteve também presente a Fritz Haag, casa fundada no limiar do século XII, na região alemã de Mosel, cujos vinhos se poderão descrever genericamente como frescos, minerais e equilibrados.

E se estes nomes eram já mais do que suficientes para nos proporcionarem uma constelação de bons vinhos, o certo é que as verdadeiras estrelas do evento, os astros cintilantes cuja luz irradiava por toda a adega da Niepoort, esses foram, sem dúvida nenhuma, os 16 produtores presentes da famosa região francesa – Côtes du Rhône.       

Os vinhos à prova eram tantos e tão majestosos, que depressa me abstraí de extensas e rigorosas notas de prova. Tirei algumas, mas curtas e singelas. Havia muito para sentir, muito havia para aprender e apreender. Apetecia-me falar com quem sabia, sorver um pouco dos seus conhecimentos, perceber e sentir o respeito que nutrem pela vinha e pelo vinho.

De facto, estes produtores, pequenos ou grandes em dimensão (o que é que isso interessa!?), são grandes em qualidade, monstruosos em categoria e gigantes em consistência. Não se prendendo a modinhas comerciais, não se deixando seduzir por vaidades efémeras, parecem antes e acima de tudo, respeitar e desenvolver a ancestralidade dos conhecimentos que herdaram ou souberam adquirir.

Reconheço que falar de uns e ignorar os demais é realmente uma grande injustiça. Todos eram bons e dignos de registo.

Desde o impressionante Boisrenard Vielles Vignes dos simpáticos manos do Domaine de Beaurenard, passando pelo mentolado e profundo Chaupin do Domaine de la Janasse, pelo sumptuoso Viognier (Condrieu - claro está!) do Domaine de Yves Cuilleron, com o seu nariz completamente fora do baralho (parafraseando o meu amigo Luís Pedro Maia) e terminando nos químicos e bem estruturados Renaissance e Cornas do Domaine Clape, tudo ali exalava qualidade, nobreza e brilhantismo.

São vinhos singulares, com uma frescura magistral, acidez em dose certa, mineralidade quanto baste e uma madeira sem qualquer excesso, apenas e tão somente o suficiente para lhes conferir complexidade.

Sem medo de serem como são, estes vinhos deixavam transparecer o seu perfil autêntico, assumindo mesmo, em certos casos, um nariz com verdadeiros aromas a couro, cheiros ditos mais animais e uma prova de boca um pouco mais difícil. E porque não? Pergunto eu! Porque razão haverão os vinhos ser todos iguais? Porque razão se deverão reger todos pela mesma bitola? Se há características nos vinhos que muito prezo, a honestidade e a genuinidade são seguramente duas delas.

Contudo, não resisto à tentação de falar um pouco mais sobre um dos produtores presentes no evento - DOMAINE DE LA CITADELLE. Não porque os seus vinhos sejam superiores aos restantes, mas antes pelo facto de serem provenientes de uma Appellation que desconhecia – LUBERON -  e pela excelente relação qualidade/preço que possuem, tendo em conta que se tratam de vinhos franceses.

Este projecto vitivinícola possui 39 hectares de vinha ao norte da sub-região, 29 dos quais classificados como AOC LUBERON. Comercializa três marcas abrangidas pela denominação de origem, a saber: Gouverneur St. Auban, Les Artémes e Le Châtaignier e, para além destes, comercializa ainda três varietais, um Viognier, um Chardonnay e um Cabernet Sauvignon, classificados como Vins de Pays de Vaucluse.

Os três vinhos à prova surpreenderam-me essencialmente pelas suas elevadas mineralidade e profundidade. O BRANCO de 2008, elaborado a partir das castas Viognier, Marsanne, Roussane e Vermontino, estagiou durante nove meses em barricas novas e outras usadas e possuía um nariz verdadeiramente estonteante. Com suaves aromas cítricos entremeados por frutas como pêssegos e mangas, este vinho denotava uma madeira complexante que em momento algum se sobrepôs aos demais componentes e exibia ainda um final extremamente persistente e com contornos de suprema categoria. O seu P.V.P. em França, segundo Alexis Riusset-Rouard, filho do produtor, rondará os 21,22 Euros. Bem merecidos diga-se de passagem!

Quanto à gama de tintos, provei em 1º lugar o ARTÉMES 2005, elaborado maioritariamente a partir das castas Grenache e Syrah, provenientes de vinhas com mais de vinte anos e em que apenas 20% do lote estagiou em barricas com 4 e 5 anos de idade. Este vinho, ideal para acompanhar uma refeição de nobres assados, revelou um nariz onde eram notórios aromas a frutos negros maduros e especiarias diversas. Com uma boca muito bem estruturada, fresca e harmoniosa, onde a elegância e a robustez se degladiam em perfeita equidade, este néctar apaixonante permite-nos desembocar num final muito longo e portentoso. 

O seu P.V.P. rondará os € 12,00 em França. Que maravilha! Que achado tão gratificante…

Por último, pude degustar o Gouverneur St. Auban 2005, elaborado a partir das castas Syrah, Grenache e Mouvédre. Este vinho foi submetido a um estágio de 12 meses em barricas essencialmente usadas, sendo apenas utilizadas cerca de 15% de barricas novas. Com um nariz simultaneamente comunicativo e raçudo, onde se denotam aromas a fruta de muito boa qualidade, acompanhada por aromas balsâmicos e apontamentos de café e cacau, a sua boca transporta-nos para sensações de total equilíbrio, com uma estrutura e uma acidez notáveis e uma enorme elegância alicerçada em taninos finos e delicados.

Um tinto muito gentil, com postura e com carácter e que nos faz facilmente adivinhar a qualidade suprema do seu terroir. O seu P.V.P. em França andará pelos € 19,00, o que, espero, poderá ser um bom exemplo para muito produtor em Portugal!

Contudo, a excelência do evento não se ficou a dever apenas à qualidade dos vinhos em prova, mas também a uma organização extremamente eficaz que só poderia ser comandada por um amante e conhecedor de vinhos como julgo ser o Dirk Niepoort. Só o conheço de revistas e do chamado ouvir dizer. Mas por muito que possa ouvir…por muito que me digam que herdou todo um arsenal de vinhos, vinhas e now-how paterno…a minha convicção é só uma…Ele só poderá ser uma grande apaixonado por vinhos! Sim…! só uma grande paixão pelo vinho poderá determinar tudo aquilo que ele tem vindo a fazer.

Por último, the last but not de least, deixo aqui uma palavra de apreço para o chef Rui Paula (Restaurante DOC – Folgosa do Douro) e sua fantástica equipa. Um serviço de cozinha de grande nível, com as deliciosas iguarias a chegaram à mesa ao ritmo certo e sempre quentes, não obstante o almoço ter decorrido dentro da enorme adega que se encontrava, naturalmente, a temperaturas poucos elevadas.

Ao olhar para tudo o que me rodeava, para a beleza da paisagem exterior, para a eficiência do serviço e para a nobreza dos vinhos que por ali proliferavam, só me poderia mesmo sentir verdadeiramente sentada a uma mesa Czarina. Que me desculpem o abuso mas é caso para dizer...play it again Dirk...play it again!                             

4 comentários:

Anónimo disse...

Olga...deixo a minha opinão nas tuas palavras pois não há muito a dizer depois de um tão bom relato do que se passou.

Foi de facto fantástico, um excelente momento para provar grandes vinhos, muito distantes para o que estou habituada a conhecer,excelente organização da Nierport e do DOC...

Anónimo disse...

Olga...deixo a minha opinão nas tuas palavras pois não há muito a dizer depois de um tão bom relato do que se passou.

Foi de facto fantástico, um excelente momento para provar grandes vinhos, muito distantes para o que estou habituada a conhecer,excelente organização da Nierport e do DOC...

Manuel Gomes Mota disse...

Cara Olga,
Parabéns pelo blog do qual só agora tomei conhecimento a propósito do magnífico evento que relatou.

OLGA CARDOSO disse...

Obrigada a ambos pelas simpáticas palavras.

O evento foi de facto uma coisa do outro mundo...